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Por Jean Terese
Tudo aqui está também fadado à confusão, como quando ouvi; como lá também o foi... (Contextualizando Bião)
Palavras-chave: Novas tecnologias; teatro; espetáculo; movimento.
Picon-Vallin iniciou sua fala e pautou que apareceria nelas: Teatro documentário; espetáculo itinerante; possibilidade das tecnologias no teatro. Nesse sentido, trouxe a proposição de que hoje com as tecnologias o teatro é a cidade, porque se amplia e a invade. Isso se dá desde o início do século XX, com o advento do Teatro do Movimento e ao que parece, hoje estamos chegando a isso, considerou.
Apresentou imagens do espetáculo “Carga Sophia”, em que discorreu ao longo da palestra. Trata-se de um trabalho artístico ocorrido em grandes cidades da Europa, cada vez de uma forma. Fez-me lembrar de circo mambembe (que para época, fora completamente tecnológico/ nômade, como Vallin citaria mais à frente)...
“Carga Sophia” (relatou) se dava num caminhão, o ponto de início das ações/atuações cênicas, porque não se restringia somente a aquele espaço. Os espectadores (e penso expectadores) ficavam dentro do caminhão, podendo ver – do seu lugar para ver – Teatro - o que acontecia fora dele e deveria alternar seu foco entre dentro e fora do caminhão – ambos compondo mesma cena. Ou seja, eram realizadas ações internas e ações externas projetadas em telões.
O espetáculo se roteiriza a partir de reflexões sobre o transporte de mercadorias na Europa, pensando em com se dá esse transito/fazer. Portanto, um olhar sobre esse ato cotidiano, em que o espectador ao entrar nesta viagem de proposições cênicas, percebem muito mais coisas. Citou por exemplo o momento em que uma cantora búlgara canta dentro de uma rotunda e esse som sendo transmitido para dentro do ônibus.
Os atores são dois motoristas búlgaros que com microfones dentro de sua cabine podem interagir/narrar o que estão fazendo para os espectadores, com falar de suas vidas, suas histórias, sonhos, angustias, etc.; enquanto dirigem. O espetáculo dedica-se em mostrar também imagens de viagens anteriores, ampliando ainda mais o acesso dos espectadores ao interior daquelas vidas. A essa proposição, Vallin considerou como sendo momentos poéticos introduzidos nessa tecnologia...
Ao apresentar esse espetáculo, salientou não o fazer aleatoriamente, mas porque na configuração apresentada, este trabalho artístico apresenta não apenas um jeito (novo) de fazer teatro, mas como o teatro se insere na sociedade hoje, e as possibilidades de diálogos entre essa inserção. Sophia é muito visual, por isso o escolheu. (Mesmo havendo vários outros trabalhos). Se utiliza GPS, bloutouch, telemática...
Apresentou “Stef Fankei” com sua ideia de espetáculos nômades. Essa possibilidade de trabalho nômade, se dá justamente porque usam novas tecnologias – muito difundido na Europa. Lembrou que aqui no Brasil, em São Paulo, já se vê/viu esses fazeres - citou “Tó Araújo” e “Stefan Kari”. Reforçou que a ênfase no nomadismo se amplia quando se utiliza as novas tecnologias, ou seja, as tecnologias viabilizam/cooperam ás ações artísticas nômades.
Assim apresentou a ideia de se olhar para a cidade como teatro a partir do uso das novas tecnologias. Esse teatro é ampliado, aumentado. E esse desejo de aumentar o espaço do teatro já acontece há algum tempo, e que agora, ao que indica suas pesquisas estamos conseguindo... Nesses processos de ampliamento, relembrou a introdução da ideia de cinema dentro do teatro (década de 20 e depois em 60), desenvolvidas por artistas que desejavam visionários.
Contextualizou então esses acionamentos de mudança com duas falas pragmáticas: a de “Tadeu Skantor” – “... eu posso fazer teatro em qualquer lugar, até no teatro”. Aqui fica claro o desejo de ampliação no fazer cênico. E depois citou “Arrolho” - “... posso fazer teatro em qualquer lugar, menos no teatro”. E este mostra uma atmosfera muito além do que é possível imaginar.
Quando citou os dois pensadores apresentou duas perspectivas desse outra proposição de fazer teatro: uma que modifica o espaço e a outra que modifica o fazer teatro. Lembrou e J.L. Godart e J. Polieri – “um projetor vale tanto quanto uma boa fala”. Aqui está a possibilidade de mudança deste fazer em questão. E ainda V. Meyerhold – “não existe tecnologia mal feita/elaborada, existe mal utilizada”. Salientou a mudança da luz a gás para a luz elétrica – um grande momento nesse processo teatro versus tecnologia. (Que há muito tempo se dá). Lembrando o Diretor Teatral que surge simultaneamente a eletricidade no teatro ocidental a partir do século XIX.
Esses usos tecnológicos propiciaram o “signo do movimento” que muda o fazer teatral (Adoufo Appia). Para ilustrar mostrou o espetáculo “MacBeth” (1909). Nele, degraus e telas projetadas na caixa cênica organizam (ambientalizam) o espaço e o movimento nele. Essas possibilidades de mudança de espaço a partir de imagens projetadas é também lugar de diálogo sobre a variação de ritmos no movimento do ator, da cena, do espetáculo; como foi experimentado neste trabalho.
... Surgem ainda as colaborações de teatro + cinema = possibilidade de o ator sair da tela e entrar no espaço do teatro: Cineteatro. Cenas filmadas e cenas ao vivo que constituem um único espetáculo (cinemificação – Cinéfication Du Théâtre, que se deu considerando dois fatores os interne e os externe). No Brasil “André Dide” desenvolve ações fundadas nesta ideia de cine teatro no Rio de Janeiro.
Nos anos 20, a ideia de close up entra para o teatro. O corpo em grande plano é apresentado. Dessas influências do cinema no teatro se deu a introdução/incorporação de elementos cinematográficos dentro da cena do teatro. Ilustrando comparou/lembrou o processo de “internetização”, como sendo, sobretudo uma ideia de ampliação – (e - Pormundos afeto, lembrei).
Meyerhold introduz a ideia de legenda. Elemento que acontece junto a ação do ator no palco (na cena), com intenção de ampliar a fala do ator (ou a cena) como no cinema mudo. Foi considerado então que essa ideia introduz o texto (propriamente), a palavra escrita – a palavra no teatro.
Este mesmo Meyerhold, apresenta mudança no espaço proposta da cena, desfazendo a ideia cartesiana de palco italiano, a isso então, vem o advento da possibilidade da imersão. Tratando de estrutura física ele mostra o projeto do Teatro Esférico – nele há possibilidade de pensar mais no som do espetáculo, por exemplo. Esse som indo além do palco, da acústica, da trilha sonora, da voz...
Trouxe como outro exemplo de imersão, Erwin Piscator, Le Déluge, 1926: Atores e público entrando na cena... Grandes telas projetando o público na cena e os atores “saindo” de dentro delas. E os desejos de “Antonin Artaud”, de projetar imagens no corpo do ator. (“como seria formidável projetar a imagem no corpo da atriz”).
Vallin ressaltou que a importância de estudar esses autores não deve acontecer pelo que fizeram, no entanto pelo que imaginaram fazer. Foram visionários!
O pensamento da construção de espaço imersivo entende-se como a possibilidade de banho sensorial, colocando o espectador em comunhão com as proposições de movimentação do/no espetáculo. (E. Piscator, Le cós Oppenheimer, 1964).
Outro momento de importante contribuição tecnológica foram às relações entre o teatro e a TV. – Teatro documentário. (“um grande momento” – disse Vallin)...
Desse processo teatro/tecnologia, Vallin considerou que essas relações não podem se dá de forma negligenciada, mas que é importante refletir em como se utiliza uma imagem; qual imagem; qual sua influência na encenação? ...São perguntas que corroboram com que essas contribuições sejam importantes.
Piscator foi considerado o “engenheiro teatral”, neste sentido. Entretanto esse título na Europa era dito pejorativamente pelos europeus, porém não pelos EUA, que era louvado pelos seus fazeres.
John Cage em 1965, nos Estados Unidos, mistura dança, música e as tecnologias na construção artística. Já em 1966, realizou um “grande evento” - Evenings, Teatre end engineering. Neste evento participou importantes artistas como Lucinda Childs, Robert Whitman, Steve Paxton, dentre outros.
Neste evento surge a ressignificação da equipe de técnicos, a mudança em seu estatuto, que outrora não eram considerados artistas como hoje são e devem entrar nos créditos dos espetáculos com tal, pois fazem parte da criação, ativamente. No espetáculo “Variações 5”, de Cage a tecnologia ficava na frente da cena – os computadores, fios, aparelhos de som,etc.; e, por exemplo, os bailarinos ficavam atrás deles.
De toda essa movimentação teatral J. Polieri, propõe o Teatro do Movimento Total, que vem em complemento as então ideias de Teatro do Movimento e Teatro Total. Mostrou protótipo dele em Osaka, 1970. Pensa-se em chegar ao Ciber Teatro / Teatro Global (espaço), mesmo que no momento não seja possível, mas com o avanço da telemática as possibilidades estão aí, brincou Vallin... (ou Teatro 360°). Piliere, num manifesto em 1956, do “Teatro Caleidoscópio”, termina seu texto dizendo que tudo é possível...
Citou sobre a especulação cenográfica na cena, nele o projetor gera cortina de luz no palco que permite fazer mudanças rápidas de cenário... Lembrou “Isobodar’, artista- pesquisador de diversidade de possibilidade de telas para projeção: filo, corda, lâmina...
Entre os anos 80 e 90 é trazida para a cena relações humana com mundo interior, nele então o ator (es) se relaciona com o sonho, o desejo, o obceno, etc.; que anteriormente não era visível. (D. Danis, kiwi Théâtre – film, 2008). Dentre outros fatores essa possibilidade tem haver com permitir na inserção dramatúrgica do ator a possibilidade da ação/contribuição tecnológica. (P. Sellars / B. Viola, Tristan et isolde, Opera Bastille 2005-2006. A cenografia é exclusivamente o vídeo). Sobre esse trabalho o público dizia que as imagens impediam de ouvir a música, ressaltou Vallin.
Vallin trouxe uma reflexão preponderante à pesquisa de que as relações entre o expectador de cinema e o espectador de teatro com cinema, não é o mesmo que vê o cinema, porque ‘ele’ conhece as possibilidades de imersão...
Lembrou também os valores de ações tecnológicas simples e citou Eugênio Barba que se utiliza da câmera filmadora como ferramenta para treinamento do ator. E assim a tecnologia aparece no seu fazer.
Na conclusão acresceu à palestra e até mesmo como um convite reflexivo sobre a necessidade de se ter consciência sobre o uso da tecnologia no teatro (nas artes), pois não são organizações tão simples, fáceis de fazer: O público que está lá, conhece e tem outros entendimentos...
(...)
Sobre o termo “novas tecnologias” no teatro, Vallin fora questionada se este termo seria ressignificado – com considerava (a autora do questionamento). Se poderia emergir outra terminologia, porque esse termo sugere fetiche sobre tecnologia. Vallin respondeu que por isso que escreve “teatro e tecnologias” e estão as novas e as antigas que se trocam/retroalimentam. Por isso que prefere utilizar a “cena e tecnologias”. Fortalecendo que a cena não deve se esmagar, ser dominada pelas tecnologias, porém dominá-las. Não podendo assim feitichizar a tecnologia no teatro... ([nem na dança, nem nas artes]). Sendo importante pensar que a cena é um lugar para se refletir sobre as tecnologias. Deve-se perguntar-se sempre porque e para que utilizar utilizá-las.
CONCLUIU:
“O teatro como depende do público, se o público se modifica, o teatro também o faz...”
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